Apresentação

A Diocese de Nacala foi canonicamente criada pelo Papa São João Paulo II, a 5 de Novembro de 1991, através da bula In Mozambicano Agro. Toda a história da Diocese anterior a esta data, está ligada à Arquidiocese de Nampula, da qual foi desmembrada. D. Germano Grachane, CM, até então bispo auxiliar de Nampula, foi nomeado primeiro bispo residencial de Nacala. Em 2018 foi nomeado novo bispo da Diocese, D. Alberto Vera Aréjula, OM.

D. Alberto Vera Aréjula, OM

Actualmente a Diocese de Nacala é constituída por 23 paróquias, agrupadas em 3 Zonas Pastorais, designadamente Nacala, Carapira e Eráti.

Quanto aos agentes pastorais, os missionários e missionárias estrangeiros constituem maioria, relativamente ao clero diocesano. Contudo, tanto os missionários como o clero diocesano, contam todos com uma inestimável colaboração de uma lista enorme de Ministérios Laicais (animadores, catequistas, anciãos, etc).

Politica e territorialmente, a Diocese de Nacala faz parte da Província de Nampula e inclui 10 distritos: Nacala, Nacala-a-Velha, Memba, Erati, Nacaroa, Monapo, Liupo, Mogincual, Ilha de Moçambique e Mossuril.

UM POUCO DE HISTÓRIA

1 – Paróquias no litoral

Desde o século XV até o XIX, na área que actualmente corresponde à diocese de Nacala, o cristianismo era conhecido quase exclusivamente na Ilha de Moçambique e em algumas localidades do litoral, visitadas pelos párocos de Mossuril e da Cabaceira.

A 11 de Março de 1498 celebrou-se no ilhéu de São Jorge, hoje de Goa, próximo da Ilha de Moçambique, a primeira missa em terras moçambicanas. No entanto, só em 1506 se fixaram na Ilha os primeiros missionários, que assistiam a capela do Forte. Em 1507 ergueu-se na mesma ilha, a Igreja de Nossa Senhora da Purificação e, em 1522, construiu-se a capela de Nossa Senhora do Baluarte. Por volta de 1524, levantou-se uma casa de oração em terra firme, em Mossuril, dedicada a Nossa Senhora da Conceição e, nesse ano, celebraram-se os primeiros 40 baptismos dos habitantes do continente. Cerca de 1597 erigia-se uma nova paróquia na Cabaceira Grande, dedicada a Nossa Senhora dos Remédios.

Nos primeiros anos após a presença cristã, o território moçambicano esteve sucessivamente sob jurisdição da Ordem de Cristo em Tomar (até 1514), das dioceses do Funchal (até 1534) e de Goa (até 1563). Em 1559 foi nomeado o primeiro administrador eclesiástico (padre Manuel Coutinho) e em 1612 foi transformado em Prelazia, dependente da arquidiocese de Goa, com os prelados a serem nomeados ou pelo rei de Portugal, ou pelo arcebispo de Goa, Fr. A. de Tomás (1º Bispo). Só em 1940 seria constituída a Província Eclesiástica de Moçambique, com uma hierarquia nomeada pela Santa Sé.

Durante o longo período da Prelazia, passaram e trabalharam na diocese diversos religiosos jesuítas, dominicanos, franciscanos, entre outros. Na Ilha de Moçambique existiu um importante colégio da Companhia de Jesus, mais tarde confiscado pelo Estado e convertido em palácio real. Pela Ilha passou S. Francisco Xavier, o grande Apóstolo do Oriente, e aí permaneceu por cerca de seis meses, aguardando a sua partida para a Índia (de novembro de 1541 a Maio de 1542).

2 – Rumo ao interior

Só no início do séc. XX se avançaria para o interior com a abertura das Missões de S. Pedro do Lúrio, em Vocoro, perto da foz do rio Lúrio (erigida em 1907, mas implantada em 1908), e de Santa Bárbara do Mogincual (2 de Janeiro de 1909).

Nos anos 1920/30, seguindo o método que os jesuítas seguiam no vale do Zambeze, foram abertas várias escolas-capelas no Alua, Odinepa e Memba. O padre residente em Vocoro visitava estas escolas uma vez por ano, se deslocava de Vocoro até a Ilha de Moçambique, para visitar o seu confrade. Dos alunos das escolas que quiseram ser baptizados, formaram-se as primeiras famílias cristãs que foram viver em Vocoro, constituindo uma aldeia cristã. Para Vocoro vieram também as Irmãs de São José de Cluny. Sendo francesas, tratavam-se por “Ma Mère” e por isso o povo as chamou “Mameri”.

Em 1935, o P. Mateus deslocou-se de Vocoro para Mirrote, onde abriu a Missão (erecção canónica a 27 de Dezembro), no edifício da antiga Administração. Várias famílias cristãs de Vocoro deslocaram-se para Mirrote, trabalhando como pedreiros e carpinteiros. A esta missão vinham os alunos que queriam ser baptizados, de Nacaroa, Alua e Namapa. Como as irmãs de Cluny tiveram que abandonar a missão por exigência do governo republicano, vieram as Irmãs Vitorianas (1940), que deram um bom impulso à formação das meninas, fazendo para elas o internato. Estudavam na escola e preparavam-se para o casamento. Algumas contraíam casamento católico para poder sair do internato aceitando qualquer pretendente. Por isso, entre estes casamentos houve muitos divórcios. De Mirrote saíram vários catequistas-monitores e por eles foram abertas mais escolas-capelas. Alguns alunos e alunas foram enviados à missão de Unango para tirarem o curso de professores. De Odinepa foi para Lourenço Marques um rapaz como seminarista, mas, tendo chegado à teologia, desistiu.

Nesses tempos, sobretudo até 1950, para os missionários, evangelizar queria dizer conquistar o mundo para Deus: “levar aos povos, ainda bárbaros e ignorantes, a verdadeira civilização, a civilização cristã” (Carta de 28/5/50 de Fr. Teófilo, Bispo de Nampula). Porém, os missionários que viviam no meio do povo, anunciavam e testemunhavam de modo simples e directo, sem constrangimentos, Deus revelado por Jesus Cristo no Espírito Santo. Embora os missionários não conhecessem bem a língua e a cultura do povo, e muitas vezes a sua missão assumisse um cunho colonizador, em geral são lembrados como pessoas que vinham partilhar a vida e os sofrimentos do povo, ao qual tinham um verdadeiro amor.

3 – Crescimento das Missões

Em 1947 chegaram os Missionários Combonianos e, nos anos que se seguiram, abriram sucessivamente as missões de Mossuril (reaberta), Mueria, Carapira, Namahaca, Nacaroa e Matibane. Em 1954 chegaram também as Irmãs Combonianas. Em 1959 chegaram a Moçambique as Irmãs Carmelitas do Sagrado Coração, tendo vindo para a Arquidiocese de Nampula em Março de 1966.

O trabalho da evangelização até os anos 60/70 foi desenvolvido por meio do ensino do catecismo católico de S. Pio X em língua macua nas Escolas-Capelas dependentes das Missões. Nestas escolas, o monitor era também catequista, que ao domingo reuniam aí os cristãos para repetir algumas verdades do catecismo e rezar o terço. Aos domingos os missionários iam visitar as Escolas-Capelas dando aos cristãos a possibilidade de se confessarem e celebravam com eles a Eucaristia. Cada três ou seis meses, o catequista escolhia os que sabiam melhor a doutrina e que quisessem ser cristãos. Estes iam ficar de três a seis meses no internato da missão, onde eram baptizados. Na missão tinham três horas de catecismo: explicação e memorização. De manhã assistiam à Missa e à noite rezavam o terço. Os alunos, depois do Baptismo, voltavam para as suas casas e continuavam a escola.

Nas missões leccionava-se a terceira e a quarta classes. Entre os que conseguiam concluir a quarta classe, eram escolhidos alguns para serem enviados a abrir outras escolas-capelas, onde não as houvesse, de acordo com as autoridades coloniais e tradicionais. Em geral, as meninas chegavam só à segunda classe. No entanto, as cristãs eram convidadas ficar no internato para frequentar a terceira e a quarta classes. Algumas destas foram também tirar curso de professoras em Marere – Nampula. As Irmãs ensinavam às alunas costura e educação doméstica, para serem boas mães; ficavam no internato até serem casadas. Embora depois do casamento houvesse sempre divórcios, nestes internatos formaram-se também boas famílias cristãs, que levaram para a frente a Evangelização e as comunidades cristãs nos anos difíceis da perseguição marxista.

O ensino do catecismo nas escolas teve uma boa influência em todo o povo. Os velhos lembram que antes dos anos cinquenta, eram mais frequentes os homicídios e assaltos nas estradas. Os mandamentos da Lei de Deus, memorizados pelos alunos, cantando, deram um impulso à formação da consciência moral do povo.

Neste tempo, houve missionários que se preocuparam por conhecer a língua e a cultura macua, porém, na maioria procuraram, por meio das escolas e da catequese, promover a cultura e a língua portuguesas. A fim de os tornar bons cristãos promoveu-se nalgumas missões a Legio Mariae (Legião de Maria).

Juntamente com o catecismo de Pio X, nos internatos das Missões era ensinada também a Bíblia das Escolas (Ecker). Apesar da actividade missionária estar centrada sobre o ensino e em grande dependência económica do Estado colonial, a Palavra de Deus abriu caminho para reunir os crentes nas comunidades cristãs actuais. Neste tempo iniciou-se a prática das primeiras nove Sextas-Feiras para os neófitos, fazendo muitos para isso longas caminhadas. Os de longe chegavam na Quinta-Feira, confessavam-se e na Sexta, depois da Missa, voltavam a suas casas.

4 – Uma nova evangelização

Após a vinda de D. Manuel Vieira Pinto (1967), arcebispo de Nampula, iniciou-se uma nova evangelização.

O Bispo promoveu encontros dos missionários e semanas de estudo sobre os documentos conciliares e a Bíblia. Vieram da diocese da Beira os Padres Brancos para animar essas semanas. Muito válidas para a renovação dos missionários foram as publicações IP (Investigação e Informação Pastoral) do centro de Investigação Pastoral de Moçambique, sob orientação da Conferência Episcopal.

Acabaram os internatos das meninas para preparação ao casamento. Começaram algumas catequeses semanais, nas tardes, para os adultos que se preparavam ao casamento. Entre os cristãos casados de cada Capela começou-se a escolher um ancião que fosse guia dos adultos, enquanto o professor-catequista continuava com o ensino a crianças e jovens. Aos domingos, nas capelas, começaram-se a ler as leituras dominicais em macua, em vez da oração do terço. O Centro Catequético do Anchilo preparou os textos para a Celebração da Palavra dominical. Foram editados os livros “Malompelo àKristu” e “Watàna wa Nanano”.

Começou-se a fazer o catecumenado nalgumas escolas-capelas, onde o Padre permanecia alguns dias por semana em vez de irem todos à Missão.

Em 1968 foi aberto um Centro Catequético em Mueria para jovens da quarta classe que quisessem ser catequistas, não com função de ensino nas escolas, mas como formadores das comunidades cristãs dos adultos. Em 1969 foi transferido para o Anchilo, onde, em 1971, começaram a ser formados casais de catequistas. Estes primeiros catequistas a tempo pleno, pagos pelas missões, mas sem emprego nas escolas, foram uma preciosa ajuda para formar as comunidades cristãs, desligadas das escolas do governo. Em algumas missões promoveram-se semanas de reunião dos professores para lhes explicar qual o papel da escola e qual o papel da capela e da comunidade cristã. Nalgumas missões fizeram-se também pequenos cursos bíblicos para esses mesmos professores.

Promoveu-se a construção da capela separada da escola do governo. Os professores-catequistas foram deixando o ensino catequético, e ficaram só com a escola. Os que tinham só a terceira classe tiveram de deixar o ensino e a maioria deles continuaram como catequistas nas comunidades cristãs. Em 1974 os missionários deixaram a direcção das escolas, que, em 1975, foram nacionalizadas.

Nos anos de 1974 a 1980, os missionários dedicaram-se, com muito fruto, à formação das comunidades cristãs e dos seus ministérios. A introdução da obrigatoriedade da Guia de Marcha para visitar as comunidades, a proibição dos Baptismos de crianças e alunos, a severa fiscalização, levaram a um fortalecimento das comunidades, que foram assumindo com coragem as suas responsabilidades e continuando as suas práticas religiosas.

No centro de Anchilo, viu-se que era impossível continuar com cursos de dois anos com participação das famílias dos catequistas. Os catequistas formados nos anos precedentes, foram deixados livres para escolherem se queriam ficar como catequistas sem vencimento, ou se queriam voltar a ser monitores nas escolas do governo. A maioria escolheu ser monitores, sendo que alguns foram escolhidos para secretários das aldeias comunais. Mas em geral mantiveram-se ligados às comunidades.

No centro de Anchilo deixaram-se os cursos bienais de famílias de catequistas e começaram a realizar-se muitos cursos com a participação dos novos responsáveis das comunidades: anciãos, catequistas, senhoras. Os temas tratados foram os Evangelhos e os Actos dos Apóstolos, para apresentar às primeiras comunidades cristãs como modelo.

Um catecismo muito válido nesses anos foi “Nimwetteleke Pwiya ohihimuwale”. Várias paróquias usaram também, para o catecumenado, o catecismo “Mwana a Muluku”, que consistia no Evangelho segundo S. Marcos acompanhado de um pequeno comentário. Em 1982 foi editado pelo Centro Catequético do Anchilo o catecismo “Yesu, Mòpoli ahu”, que, porém, não tinha a parte dos sacramentos, pelo que foi refeito, mais completo, em 1988. Uma última versão, totalmente refeita e melhorada, foi editada em 1999, estando desde então em uso nas nossas comunidades. Organiza-se em três volumes, para cada um dos três anos do catecumenato de adultos.

5 – Nova Diocese

Em 5 de Novembro de 1991, a bula In Mozambicano Agro erigia canonicamente a nova diocese de Nacala, desmembrando-a da Arquidiocese de Nampula. D. Germano Grachane, CM, até então bispo auxiliar de Nampula, era nomeado primeiro bispo residencial de Nacala. Em 1993 era ordenado o P. Atanásio Amisse Canira, o primeiro padre incardinado na diocese. A partir de 1998, todos os anos se celebraram novas ordenações presbiterais, de tal modo que em 2002 a diocese contava já com oito padres incardinados.

Entretanto, se à data da erecção canónica da diocese, o clero religioso aí existente era maioritariamente comboniano, contando-se apenas a paróquia da Ilha de Moçambique a cargo da Sociedade Missionária da Boa Nova, desde então têm-se somado outros missionários, de outros Institutos Religiosos. Assim, em 1992 chegaram os padres da Congregação da Missão (Vicentinos), em 1996 chegaram os missionários da Congregação do Espírito Santo (Espiritanos) e em 1997 chegaram os missionários da Sociedade do Verbo Divino (Verbitas).

Também novos institutos religiosos femininos chegaram à Diocese recém-criada: em 1992, as Irmãs da Obra Missionária de Jesus e Maria (Pilarinas); em 1994, as Servas do Espírito Santo Santo; em 1995, as Irmãs Franciscanas da Puríssima; em 1998, as Filhas da Caridade (Vicentinas), em 2003 as Irmãs Agostinianas do Santíssimo Salvador, e outras Congregações que vieram nos últimos anos, como Irmãs Missionárias do Espírito Santo, Pequenas Irmãs de Maria, Irmãs da Sagrada Família, Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres, as Irmãs Salesianas, Irmãs do Precioso Sangue, Apresentação de Maria e Servas do Coração de Jesus. Por algum tempo passaram também na Diocese as Franciscanas Hospitaleiras, as Mercedárias da Caridade e as Irmãs do Coração de Maria.

De grande relevo é a criação do Centro Catequético Daniel Comboni que, logo depois da criação da Diocese, começou modestamente a funcionar na Carapira, tendo vindo desde então a desenvolver-se, consolidando a sua acção e a sua influência pastoral na Diocese. Assume-se como o centro dinamizador de toda a formação e programação pastoral das lideranças laicais e, por isso, presta um serviço inestimável à animação da pastoral diocesana.